05 agosto 2017

A Sociologia que luta


O sociólogo franco-argelino Pierre Bourdieu (1930-2002) insistia que a Sociologia devia restituir aos homens e mulheres o sentido de suas vidas. No documentário A Sociologia é um esporte de combate, filmado entre 1998 e 2001, o diretor Pierre Carles acompanha Bourdieu em suas atividades cotidianas, na sala de aula, nas reuniões de pesquisa, nas ruas e nas intervenções midiáticas, buscando tornar públicas as tarefas do sociólogo, dentre as quais se destaca aquela que prevê não haver separação entre a vida dos indivíduos e as determinações gerais da experiência social.

Assim, muito mais do que um esporte casual ou uma ação espontânea, a Sociologia se converte numa tarefa cotidiana, exaustiva, que requer um discurso sempre atualizado e orientado para as necessidades reais dos sujeitos sociais. A Sociologia fala para cada um e para todos ao mesmo tempo; ela almeja colaborar com indivíduos, grupos e classes sociais, em escala e de forma indissociável de sua missão científica de descortinar opressões e apontar opressores. No final das contas, a Sociologia deseja tão somente servir de inspiração para que as personagens da vida possam ter autonomia na construção de suas próprias narrativas históricas.

A tarefa, contudo, não é livre de obstáculos. Existem as barreias econômicas, que compram e vendem estilos e práticas de poder; sobram as relações de dominação, que subjugam, ameaçam e, no limite, impõem silêncio e resignação; ecoam as forças da cultura, que impregnam o espírito humano de conformismo, disseminam a ideologia do individualismo cego e, para ser bem atuais, definem o consumo como o mais expressivo sentido da existência. Tatuados pela solidão de suas ações, pela perda da esperança e pela desconfiança em relação à vida política e cidadã, os indivíduos se refugiam em si mesmos, julgando escapar à sociedade e, paradoxalmente, se entregando de vez ao aspecto mais nefasto da convivência, qual seja: aquele que decide não ser possível fazer nada para mudar a ordem natural das coisas.

A Sociologia, portanto, esforça-se por desnaturalizar a vida em sociedade, demonstrando que não há nada de imutável nas experiências humanas compartilhadas. Questões como a da desigualdade social, da corrupção nas relações entre o poder público e o mercado, da precariedade nos serviços de saúde e educação, nada disso é natural ou impossível de mudar. São resultado de uma articulação de esforços políticos, econômicos e socioculturais que privilegiam o interesse privado, o ganho de alguns, a permanência dos privilégios de velhos grupos e classes instalados nas estruturas do poder social. Desmontar essas articulações de interesses privados e de antigos e nocivos privilégios é um dos maiores objetivos do esporte sociológico de combate.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), que se tornou famoso pela sua metáfora da modernidade líquida, afirmava que um dos temas mais delicados da sociedade contemporânea é o das identidades, sejam individuais, sejam coletivas. Tudo muda muito rapidamente, tudo exige respostas prontas e acabadas, sem dar oportunidade à reflexão ou às ações coletivas e organizadas. Desse modo, as opiniões fluem, respingam, jorram de um lado a outro, sem se cristalizarem, sem se darem conta de sua inconsistência e de sua fragilidade. Por isso, as identidades são vítimas preferenciais dos processos de dominação e desarticulação. Impedir e criminalizar lutas e formas inteligentes de organização coletiva; minar resistências e oferecer as migalhas das mercadorias abundantemente consumidas – essas são as tarefas do tempo líquido que nos banha diariamente.

A Sociologia, bem como as demais ciências sociais – em particular, a Antropologia e a Ciência Política -, está longe de não ter desafios e mais distante ainda de ser uma prática de fácil convencimento em face da opinião mais geral que circula na vida em sociedade. Antes de mais nada, seu papel é o de compreender a experiência social. Se assim bem se realizar, poderá auxiliar também nos processos de transformação da vida humana. Nesse momento, terá conquistado alguns pontos decisivos na prática esportiva a que se candidata com tanta coragem e capacidade de se refazer a toda hora.